GOVERNO vai ACABAR com YOUTUBE ao REGULAMENTAR ANÚNCIOS

Regular anúncios é fingir que a economia digital funciona por mágica, cortar publicidade não elimina custos, só muda quem vai pagar.

A partir de 15 de fevereiro de 2026, nenhuma plataforma digital no Vietnã poderá exibir anúncios em vídeo ou imagens em movimento por mais de cinco segundos sem que o usuário tenha a opção de pular o conteúdo. Além disso, será proibido que pop-ups e banners façam o usuário esperar antes de fechar. O Decreto estabelece uma série de requisitos para garantir que qualquer conteúdo promocional possa ser ignorado após cinco segundos. Plataformas como YouTube, Facebook, TikTok e outros provedores de vídeo online precisarão modificar seus sistemas. A intenção, segundo o governo, é proteger o público de práticas abusivas e dar mais controle ao espectador.

Em teoria, a medida parece um avanço. Afinal, quem nunca se irritou com aquele vídeo travado por 30 segundos de propaganda sobre um produto que jamais compraria? No entanto, por trás da promessa de uma internet mais limpa e menos invasiva, surge uma questão incômoda: será que limitar anúncios realmente melhora a experiência do usuário, ou apenas interfere em um dos mecanismos econômicos fundamentais que sustentam a internet moderna? Essa é a tensão entre o desejo por uma navegação mais fluida e o custo invisível de mantê-la “gratuita”.

Ninguém gosta de anúncios, seja na vida real ou no mundo virtual, e isso é um fato quase universal. Eles interrompem vídeos, invadem o feed, quebram a concentração. Mas o que muita gente esquece é que esse incômodo é parte essencial do modelo que mantém a internet funcionando sem cobrar entrada. Quando você abre um vídeo no YouTube, assiste a uma live na Twitch ou desliza o dedo no TikTok, há um custo real por trás dessa experiência. E esse custo é pago pela publicidade.

(Sugestão de Pausa)

Toda empresa, seja um pequeno e-commerce ou uma gigante multinacional, precisa de um meio para alcançar seu público. O anúncio é exatamente essa ponte: ele liga o produto ao consumidor. Sem publicidade, o mercado não conversa consigo mesmo, e a engrenagem econômica simplesmente para de girar. O resultado seria um colapso em cadeia, empresas desaparecendo e empregos evaporando. Um mundo sem anúncios soa como um paraíso até que você perceba que ninguém mais teria como divulgar nada, e o “gratuito” deixaria de existir em questão de semanas.

Plataformas diferentes lidam com esse dilema de formas próprias. O YouTube opera com base em CPM (custo por mil impressões), onde os anunciantes pagam por cada mil visualizações de seus anúncios. Existem anúncios puláveis e não puláveis, que o usuário é obrigado a assistir até o fim. Há também os mid-rolls, inseridos no meio do vídeo, e os anúncios de banners, que aparecem durante a exibição. Cada formato tem um valor de mercado diferente: os não puláveis são mais caros porque garantem o tempo integral de exposição da marca. A atenção é a moeda mais valiosa do século XXI, e as empresas pagam caro por segundos de atenção verdadeira.

O TikTok usa uma lógica similar, mas com um toque de algoritmos. Os anúncios aparecem no meio do scroll, misturados a vídeos comuns, o que faz com que o usuário nem sempre perceba de imediato que está vendo propaganda. Esse formato é poderoso porque integra publicidade e entretenimento de forma sutil. Já a Twitch, voltada para transmissões ao vivo, trabalha com inserções automáticas de comerciais durante as lives, algo que gera receitas proporcionais ao tempo assistido e ao número de espectadores.

O ponto crucial é que limitar o tempo desses anúncios por decreto mexe diretamente na equação financeira de todo o ecossistema. Se o Vietnã impõe um limite máximo de cinco segundos para anúncios não puláveis, o valor pago pelos anunciantes despenca. Países com mercados publicitários pequenos, como o vietnamita, já operam com CPM e RPM muito mais baixos do que grandes economias. Inserir entraves legais reduz ainda mais o incentivo para as empresas anunciarem ali. O resultado? Menos investimentos, menos circulação de dinheiro e menos empregos no setor de mídia digital local.

Além disso, os criadores de conteúdo, os pequenos e médios youtubers, streamers e influenciadores, sentem o impacto antes de qualquer outro. São eles que dependem da monetização por anúncios para manter seus canais. Um grande conglomerado pode sobreviver à queda na receita; um criador independente, não. A legislação, que a princípio busca proteger o usuário, termina por sufocar a economia criativa de base e aumentar a dependência de subsídios ou de patrocínios diretos.

(Sugestão de Pausa)

Outro ponto problemático é a insegurança jurídica que a norma introduz. Ela define claramente os limites de vídeos publicitários, mas deixa de fora formatos modernos como os anúncios em scroll, comuns no TikTok, Instagram Reels e Shorts. Se esses anúncios também forem considerados “não puláveis”, como aplicar o limite de cinco segundos a um conteúdo que o usuário desliza como um video comum? A falta de clareza não apenas reduz o valor dos anúncios, como torna o país menos atraente para investimentos em tecnologia. No fim, o impacto real recai desproporcionalmente sobre quem menos tem estrutura para absorver perdas, o pequeno empreendedor digital e o espectador comum.

Apesar disso, seria ingenuidade negar que há um problema real sobre a veiculação de anúncios online hoje. De fato, nas principais plataformas digitais, o número de anúncios aumentou de forma visível. O YouTube se tornou mestre na arte de testar a paciência humana: vídeos interrompidos duas, três, às vezes cinco vezes; anúncios duplos; banners que aparecem até durante os próprios comerciais. No móvel, a tela divide-se entre o vídeo e um banner persistente que ocupa o lado direito do video, às vezes sem sequer um “x” para fechar.

Na Twitch, o cenário é ainda mais frustrante. Diferente do YouTube, onde o vídeo pode ser pausado e retomado, nas transmissões ao vivo a interrupção significa perder tempo de live. O espectador perde o timing, o chat segue, o streamer reage a algo que o público não viu. Além disso, o número dos anúncios que interrompem lives é no mínimo exagerado. Há relatos de até cinco anúncios consecutivos antes mesmo da live começar.

Essas práticas, longe de serem acidentais, fazem parte de uma estratégia deliberada. As plataformas descobriram que podem tornar a experiência gratuita suficientemente irritante para empurrar o usuário a pagar por versões premium. 

Mas aqui entra um ponto essencial que diverge da lógica estatista : O mercado se auto regula e elimina ineficiências.

E a história recente oferece um exemplo claro dessa dinâmica. A Twitch, por anos a plataforma dominante em lives, transformou-se num império quase imune à concorrência. Sua marca se tornou sinônimo de streaming, assim como o YouTube é sinônimo de vídeo. 

Toda essa dominância sobre o mercado de lives levou a twitch a adotar não só práticas agressivas com anúncios, mas também a oferecer parcerias cada vez mais desinteressantes para os streamers. Recentemente, um dos streamers mais populares da plataforma, Asmongold, expôs publicamente a discrepância entre os anúncios exibidos em seus canais e o valor efetivamente recebido. Durante uma transmissão, ele abriu o painel de controle e mostrou ao vivo que, apesar de os espectadores relatarem constantes interrupções publicitárias, o rendimento total por anúncios era de apenas 11 centavos. O momento viralizou. Ele descreveu, incrédulo, que o painel marcava apenas sete segundos de publicidade por hora e, ainda assim, os espectadores reclamavam de anúncios repetidos. A Twitch estava rodando anúncios em seu canal e não repassando quase nada da receita.

(Sugestão de Pausa)

Esse episódio detonou um debate mais amplo sobre a transparência e a distribuição de receitas na plataforma. E, como em todo mercado que abusa de seus criadores, o vácuo de confiança abriu espaço para a concorrência. Surgiu então a Kick, uma nova plataforma que cresceu justamente explorando as falhas de mercado da Twitch, sem precisar de intervenção estatal, apenas pela força da inovação e da insatisfação.

A Kick adota um modelo de monetização radicalmente diferente. Em vez de pagar criadores por visualizações, o foco está na interação: assinaturas, gorjetas e participação ativa durante as transmissões. O público engajado vale mais do que o número bruto de espectadores. Além disso, a divisão de receita é quase utópica comparada à da concorrência: 95% para o criador, 5% para a plataforma. Na Twitch, essa proporção é tradicionalmente 50/50. Isso significa que um streamer pequeno, mas com uma comunidade fiel, pode ganhar mais na Kick do que um grande nome na Twitch.

Outro diferencial é a relação com os anúncios. Eles existem, claro, mas não são o coração da monetização. A Kick aposta em poucos anúncios bem direcionados, voltados a audiências mais atentas. Como o público é mais engajado, cada impressão vale mais. É o oposto do modelo de saturação da Twitch, que exibe inúmeros anúncios de baixo valor, desgastando o usuário e o próprio produto.

Esse caso demonstra com clareza um princípio básico da economia livre: a concorrência é o antídoto natural contra os abusos e monopólios. Quando empresas competem, elas precisam ouvir o consumidor. Quando o Estado regula, ele cria amarras que beneficiam justamente quem já tem poder. A inovação corrige o mercado, não a canetinha mágica do burocrata.

No fim, retornamos à pergunta do inicio: limitar anúncios por lei realmente melhora a vida do usuário, ou apenas cria uma nova camada de distorção? A resposta, é quase óbvia depois de ver tudo que abordamos. O problema não é a publicidade em si, mas a ausência de concorrência e de liberdade de escolha.

Regulamentar formatos e segundos de anúncios não elimina incentivos econômicos, apenas os redireciona. Quando o governo corta uma fonte de receita, as plataformas compensam de outra forma. Podemos esperar mais paywalls, mais planos premium, mais publicidade disfarçada. O custo sempre encontra um jeito de voltar para o consumidor.

A história mostra que mercados punem plataformas abusivas quando os usuários têm alternativas. O declínio gradual da Twitch e a ascensão da Kick são um lembrete disso. Já o Estado, quando intervém, tende a institucionalizar o problema. Ele transforma falhas passageiras em estruturas permanentes. A publicidade é uma engrenagem vital da economia digital. Ela não é um vilão, é um mecanismo que troca atenção por conteúdo. Se o público sente que a troca está injusta, novas plataformas surgem para restabelecer o equilíbrio. Essa é a beleza da competição, o sistema se ajusta sozinho, sem a necessidade de decretos. Quando as pessoas são livres para escolher, o mercado é livre para agir. E para os estatistas essa é a lição mais incômoda de todas: não é o Estado que corrige o mercado, é o mercado que corrige o Estado.

Referências:

https://vietnamnews.vn/economy/1733182/online-ads-must-be-skippable-within-5-seconds-under-new-regulations.html

https://abei.gov.vn/thong-tin-dien-tu/vietnam-to-limit-online-ad-skip-time-to-5-seconds-starting-february-15/119091

https://www.jornalo.com.br/twitch-registra-queda-no-engajamento-devido-a-excesso-de-anuncios

https://timesofindia.indiatimes.com/world/us-streamers/i-got-two-pennies-asmongold-blasts-twitch-exposes-payouts-after-viewers-report-stream-pauses-for-commercials-that-never-play/articleshow/125717131.cms

https://www.ranktracker.com/blog/kick-revenue-model/