60% de queda no lucro, inadimplência do agro, adiamento de dividendos e risco de corrida bancária. Em meio à tempestade econômica, o Banco do Brasil pede que a AGU investigue quem está sugerindo que seus correntistas tirem o dinheiro do banco.
Antes de falarmos especificamente do caso do Banco do Brasil, é importante entendermos como o estado criou um sistema financeiro extremamente frágil, que pode colapsar como um castelo de cartas e destruir a economia, empresas, vidas e o futuro de gerações inteiras.
Uma dentre as tantas mentiras do sistema financeiro atual, que deveria convencer qualquer pessoa com inteligência e zelo por seu patrimônio a ter receio em deixar seu dinheiro depositado em bancos, no formato de moeda fiduciária, é o sistema de reserva fracionária. Explicando de maneira nem tão sintética, o sistema de reserva fracionária é uma espécie de alavancagem que os bancos fazem, para poder operar muito mais dinheiro do que eles realmente possuem. Para melhorar o entendimento, vamos ver um exemplo hipotético: Imagine que o banco central de uma republiqueta chamada Bostil, determine que a taxa de reserva fracionária mínima que os bancos devem ter é de 30%. Agora imagine um banco hipotético, chamado Banco de Bostil, que tenha apenas 3 correntistas bostileiros, cada um depositando cem mil dinheiros nesse banco. O banco tem então um montante de 300 mil dinheiros. Agora imagine que um quarto bostileiro chegue na porta desse banco, querendo emprestar 200 mil dinheiros para abrir uma empresa de ração para unicórnio. Em tese, o banco não tem recursos próprios, e conta apenas com 300 mil dinheiros dos 3 correntistas. Mas acontece que o sistema de reserva fracionária do Bostil, permite que o banco deixe disponível aos correntistas apenas 30% do que eles depositaram. Ou seja, dos 100 mil dinheiros que cada um depositou, o banco pode emprestar ou investir até 70 mil dinheiros de cada correntista.
Nesse caso, imagine que o Banco do Bostil teria então 210 mil dinheiros, ou seja, 70 mil de cada correntista, disponível pra empréstimo. Isso é o que chamamos de reserva fracionária, e apesar de parecer loucura de uma sociedade imaginária, isso existe na realidade e, se você é um ser pensante, com certeza já entendeu o tamanho do problema que um esquema desses pode causar. A primeira pergunta que uma pessoa sensata se faz é: Tá, mas e se os 3 correntistas quiserem sacar seus 100 mil dinheiros, ao mesmo tempo, e o banco só tiver 30 mil disponíveis pra cada um? Nesse caso, há uma solução que é sentar e chorar. Realmente, se isso acontecesse, o banco não teria como arcar com o que deve aos correntistas, até que o empréstimo fosse devolvido. Claro que em um exemplo minimalista, com apenas 3 correntistas e 1 tomador de crédito, esse banco correria muito risco de colapsar. Mas agora imagine no mundo real, onde milhões de pessoas são correntistas de grandes bancos, onde muitos empréstimos são contratados e, normalmente, são pagos. A probabilidade do banco ficar sem dinheiro para honrar com as solicitações de saques de seus clientes é bem menor, afinal, a maioria das pessoas não saca todo o seu patrimônio de uma vez.
Mas esse fenômeno de muitos correntistas tentarem realizar saques ao mesmo tempo, apesar de menos provável, não é impossível. Na verdade é algo que já se repetiu diversas vezes ao redor do mundo, e tem até um nome bem popular, que dá arrepio nos banqueiros só se ouvir falar: corrida aos bancos.
A corrida aos bancos normalmente é desencadeada em situações de crise, podendo ter um fato já consumado como causa, como por exemplo a quebra de uma empresa, um golpe de estado ou uma guerra, ou então um boato, previsão ou temor do mercado, dos clientes do banco ou da população em geral.
Um exemplo recente de corrida bancária, é a que causou a quebra do Silicon Valley Bank (SVB), o décimo sexto maior banco americano, em apenas 48 horas. Em resumo, no caso do SVB, o governo americano aumentou a taxa de juros para tentar conter a inflação causada pela impressão de dólares feita durante o problema sanitário que ocorreu há alguns anos. Essa alta de juros prejudicou principalmente as empresas de tecnologia, em especial as startups, cujas operações são altamente dependentes de crédito. Essas empresas, muitas delas clientes do SVB, para tentar manter seus negócios operantes, começaram a sacar seu capital que estava depositado no banco. O problema é que esse movimento, que por si só não seria suficiente pra quebrar o banco, acabou sendo impulsionado pelo medo das demais empresas que também eram clientes do SVB, de que o banco quebrasse, e isso causou uma corrida aos bancos ainda maior, na qual cada um queria tirar seu dinheiro de lá antes que o banco falisse. O resultado foi um banco com 40 anos de história, indo à falência em 48 horas. Esse é o poder de devastação de uma corrida bancária.
Só que a devastação da corrida bancária não para na falência de um banco. Na verdade, ela coloca em risco todo o sistema financeiro de um país e, dependendo de qual país ou bancos estejam envolvidos, pode colocar em risco todo o sistema financeiro global. O maior exemplo do poder destrutivo de uma corrida bancária a nível global, é a crise de 1929, a grande depressão. Essa crise iniciou-se pela intervenção do estado que baixou a taxa de juros artificialmente, através do banco central americano, para estimular a economia, em uma época pós primeira guerra mundial na qual a Europa estava em reconstrução e precisava de muita madeira, ferro, concreto e carvão. Além disso, o padrão ouro inglês havia acabado na primeira guerra mundial, permitindo que bancos circulassem mais papel moeda do que tinham em reserva. Soa familiar? Pois é, eis aí o início da reserva fracionária.
Outro problema também causado pelo estado através da impressão de moeda, é a inflação. A princípio, essa intervenção do estado pareceu boa para a economia, pois a redução da taxa de juros barateou o crédito, impulsionando muito a indústria americana. Porém, junto a esse crescimento desenfreado, vieram dois monstros econômicos que ainda são muito presentes nas economias modernas: a inflação e a alavancagem. A inflação, de acordo com a teoria econômica da escola austríaca, é o aumento da base monetária, e não o aumento dos preços dos alimentos e demais produtos, como diz a mídia tradicional e seus economistas. Já a alavancagem ocorreu nesse cenário por causa daquilo que Mises sintetizou em seu axioma da “ação humana”. De acordo com Mises, humanos agem e sempre buscando sair de um estado de menor satisfação pra um de maior satisfação. E humanos agem de acordo com os incentivos do ambiente em que estão inseridos. Aplicando isso à crise de 1929, os incentivos dados pelo estado através da redução artificial da taxa de juros, eram de que as pessoas usassem do capital abundante para assumir investimentos de maior risco, e é nesse contexto que entra a grande alavancagem na bolsa de valores, que foi uma das bombas que destruiu a economia americana e também mundial naquela década.
Pense na tempestade perfeita: taxa de juros baixa, crédito abundante, investidores alavancados e inflação aumentando. Chegou um momento em que a inflação começou a se descontrolar, e o banco central americano, não satisfeito com toda a intervenção já feita até ali, decidiu intervir mais uma vez, e isso foi fatal. Ao aumentar a taxa de juros pra tentar conter a inflação, o banco central americano diminuiu a oferta de crédito e desacelerou a economia. Com menos crédito disponível, as alavancagens também deixaram de ser praticadas no mercado de ações, fazendo com que o preço das ações começasse a despencar. E como se não bastasse o cenário perfeito pra uma crise, ainda veio a corrida bancária, causada pelo pânico da população, pra coroar todo esse caos conhecido como a Grande Depressão.
Agora que fizemos essa contextualização acerca de como o estado manipula a economia e causa grandes crises, podemos falar do Banco do Brasil.
Recentemente, tivemos duas movimentações significativas por parte do STF, para tentar blindar Alexandre de Moraes da Lei Magnitsky. A primeira delas foi feita pelo ministro Flávio Dino, que disse que bancos brasileiros não deveriam cumprir ordens estrangeiras sem antes pedir autorização ao STF. Não é possível que eles não enxerguem o absurdo que é isso: pra aplicar sanções a um membro do STF, os bancos têm que pedir a permissão aos membros do STF. Chega a ser cômico.
Essa atitude do ministro gerou um grande clima de medo nos bancos, afinal, se obedecerem ao STF, poderão ser sancionados pelos EUA e perderem acesso a ativos internacionais, bem como ao sistema Swift, o que transformaria grandes bancos, como o BB, em um banquinho de esquina. Por outro lado, se cumprirem as determinações da Lei Magnitsky, os bancos poderão sofrer punições do STF, como prisões de seus diretores e executivos. E se não bastasse essa atitude imbecil de Dino, Alexandre de Moraes ainda reforçou a ameaça aos bancos, dizendo que caso eles cumpram as sanções dos Estados Unidos, podem ser punidos pelo STF.
Tudo isso gera, naturalmente, um clima de medo e insegurança jurídica e financeira, tanto nos bancos, alvos diretos dessa briga entre STF e EUA, quanto nos clientes desses bancos.
Mas o motivo de estarmos falando especificamente do Banco do Brasil nesse artigo, é que ele acabou sendo atingido por outra pancada além daquela dada pelo STF. Recentemente, o Banco do Brasil viu seu lucro despencar 60% em relação ao ano anterior. As causas dessa queda abrupta são diversas: enchentes no Rio Grande do Sul, tarifas de 50% aplicadas pelos americanos, taxa de juros muito elevada - afinal, se baixar a taxa artificialmente o efeito da inflação explode, aumentando os preços de tudo - e também algumas quedas de preços internacionais. Tudo isso fez com que muitos produtores rurais brasileiros quebrassem, ficassem inadimplentes e entrassem com pedidos de recuperação judicial.
Frente a essa tragédia econômica, o esperado é que o mercado e qualquer um que entenda o mínimo de economia, veja que o BB está em uma situação muito delicada e, obviamente, começam a surgir comentários, e comentários se convertem em quedas no preço das ações, e as quedas geram ainda mais comentários. Começam então a surgir palavras no debate público, como “falência”, “quebra”, “queda”, “risco” e “perda”. Tudo isso levou algumas figuras da direita, como Eduardo Bolsonaro, a dizerem que talvez seja uma boa ideia os correntistas blindarem seu capital de uma possível falência do banco estatal. Eduardo afirmou que o BB “será cortado das relações internacionais, o que o levará à falência”.
A reação do banco diante desses comentários, foi acionar a Advocacia Geral da União para que investigue quem está “propagando fake news” e colocando o sistema financeiro em risco. Essa reação apressada e enérgica do banco, nos dá a entender que talvez muitos correntistas tenham começado a sacar seu dinheiro de lá. O banco estatal demonstra um certo pânico diante da possibilidade de uma corrida bancária, e não é pra menos. Se nos EUA, onde existem quase 5 mil bancos, a quebra de um deles pode gerar um colapso no sistema financeiro, imagine no Brasil que tem 4 ou 5 grandes bancos.
Só que o que o BB parece não entender, é que ao perseguir quem está comentando sobre a possibilidade dele quebrar, ele está gerando o famoso efeito Streisand, que é um fenômeno social no qual a tentativa de ocultar algo acaba gerando polêmica em cima do assunto e expondo ainda mais aquilo que se tentou ocultar. Ao tentar conter uma possível corrida bancária, o que o Banco do Brasil está fazendo é gerar ainda mais comentários sobre essa possibilidade, e se colocando sob o risco de uma profecia auto realizada, que seria a ocorrência de uma corrida aos bancos, por medo de uma corrida aos bancos.
Enfim, do ponto de vista libertário, todo esse problema poderia ser evitado se a taxa de juros fosse regulada pelo mercado, e não por um banco central. Outro fator que também evitaria a crise em uma sociedade libertária, seria a responsabilidade financeira que recairia sobre bancos: atualmente, se um banco quebra, o estado corre para salvá-lo. Inclusive essa atitude estatal foi o motivo da criação do bitcoin, mas isso é assunto pra outro artigo. Em uma sociedade libertária não haveria um ente com capacidade de imprimir dinheiro e repassar a dívida dos bancos à população através de inflação.
Também não existiriam aberrações como reserva fracionária, pois em uma sociedade cuja moeda fosse realmente escassa, não haveria incentivo para se alavancar da forma como os bancos fazem atualmente.
Concluindo, o Banco do Brasil está em uma situação delicada, e nós brasileiros, também. Parece que o STF deseja profundamente quebrar o sistema financeiro de um país inteiro, pra proteger apenas 1 homem. Quem sabe essa não seja a oportunidade perfeita pra você trocar sua moedinha estatal e sem valor, por dinheiro de verdade. Que tal?
https://www.gazetadopovo.com.br/economia/escalada-da-crise-entre-stf-e-eua-levanta-fantasma-de-corrida-bancaria-no-brasil/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Dep%C3%B3sito_compuls%C3%B3rio
https://pt.wikipedia.org/wiki/Corrida_aos_bancos
https://einvestidor.estadao.com.br/comportamento/corrida-bancaria-movimento-quebrou-svb/
https://portaldobitcoin.uol.com.br/intervencao-confisco-de-ouro-e-pobreza-o-que-causou-e-quais-os-efeitos-da-crise-de-29/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Padr%C3%A3o-ouro
https://www.infomoney.com.br/mercados/banco-do-brasil-esta-risco-lei-magnitsky/
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/banco-do-brasil-denuncia-a-agu-fake-news-que-ameacam-sistema-financeiro/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_Streisand