25 Abr. 2024
Escritor: Lucasnadamais
Revisor: AmazoniaLivre
Narrador: KoreaComK
Produtor: Invest Bear

Bitcoin e a Softwar

Softwar é um livro que chama bastante atenção por seu título. Além do título, na capa há uma imagem de um crânio de cervo, exibindo sua grande galhada. Os chifres dos cervos são admiráveis em sua função de projetar poder e segurança.

Embora possam parecer desnecessariamente grandes e estranhos, esses chifres desempenham um papel crucial na hierarquia entre os indivíduos e na redução de danos por embates corporais. Apesar de sua aparência ineficiente em termos de energia, eles ajudam na preservação da vida ao minimizar lesões mortais durante disputas para estabelecer autoridade sobre território. Assim, embora possam parecer estranhos à primeira vista, os chifres são fundamentais para a sobrevivência e a segurança da espécie.

Mas o que isto tem a ver com Bitcoin? Pois bem, vejamos alguns casos: na Venezuela o governo bolivariano tem usado criptomoedas para negociar petróleo e driblar sanções dos EUA. Além disso, em 2022, hackers da Coreia do Norte roubaram US$ 1,7 bi em criptomoedas para financiar armamento nuclear. Aliás, esse montante obtido em ataques hackers, representa uma fonte de receita dez vezes maior que as exportações do país.

Enquanto isso na Suíça, iniciativas populares têm pressionado o banco central suíço a comprar Bitcoin “antes que seja tarde”. Com o debate previsto para ocorrer ao longo da próxima semana, a Suíça poderia estar à beira de uma decisão histórica, assim como aconteceu com El Salvador, tornando o Bitcoin uma moeda de curso legal”.
No artigo “What Is North Korea's Role in Bitcoin and Does It Affect Prices?”, disponível no site investopedia.com, se lê: “Anos de sanções econômicas paralisantes e de pressão dos governos próximos forçaram a Coreia do Norte a desenvolver estratégias criativas para contornar as restrições financeiras para promover a aquisição de equipamento militar e outro capital de jogo de poder. Nos seus esforços para construir uma dissuasão eficaz para o que considera como ameaças externas à sua existência, a Coreia do Norte encontrou um caminho relativamente simples para superar estas restrições onerosas: o Bitcoin”.

Não é razoável a proibição do acesso ao Bitcoin sob a justificativa de que é utilizado por bandidos, ditadores, sequestradores e assassinos. Um instrumento em si não aceita preceitos. Na ferramenta não há juízo de valor e portanto, jamais pode ser considerada imoral. Seja uma arma de fogo ou uma faca, não há moralidade no instrumento em si, apenas no uso por um indivíduo plenamente capaz.

O que vemos é que, assim como a pólvora mudou a história das guerras, a internet e seus desmembramentos também tem mudado, assim como tantos outros instrumentos amorais resultantes de fantásticos avanços da civilização humana.

São incertas as implicações de, em um provável futuro, as grandes economias estatais virem a “adotar” o Bitcoin. Parte desta incerteza está fundada no fato de que as funções do Bitcoin estão para além de meio de pagamento. O Bitcoin pode ser usado como arma, assim como descreve o major Jason P. Lowery, engenheiro astronáutico da Força Espacial dos EUA, bolsista do programa de defesa nacional no Massachusetts Institute of Technology e autor do livro SoftWar.

A tese constante em seu livro, defende a ideia de que o Bitcoin pode ser utilizado como arma de projeção de poder, na medida em que impõe custos físicos e energéticos para ser produzido, transacionado e até mesmo hackeado. O título completo da obra é: “Softwar: uma nova teoria sobre projeção de poder e o significado estratégico nacional do Bitcoin”.

Na página 373 se lê: “Quantas nações precisam fazer esses tipos de mudanças estratégicas antes de nós (Estados Unidos) reconhecermos que esta tecnologia representa algo muito mais estrategicamente valioso do que apenas dinheiro peer-to-peer?”.

E na página 370: “Usando a teoria da computação, podemos perceber que uma vez que a sociedade tenha descoberto como usar os computadores para fisicamente proteger informações financeiras, isso significaria que eles descobriram uma maneira de proteger fisicamente qualquer bits de informação, incluindo, mas não se limitando a, bits de informação financeira. Isto sugeriria que Bitcoin não é apenas uma rede monetária. Em vez disso, poderia ser descrito de forma mais geral como uma rede de segurança física que leva o nome de seu primeiro caso de uso amplamente adotado que é a segurança de informações financeiras.”

Os chifres do alce na obra de Lowery, portanto, que representa projeção de poder, se assemelha à criptografia de prova de trabalho. E pode, num futuro próximo, vir a representar também o instrumento pelo qual a humanidade virá substituir a guerra convencional, minimizando baixas e desperdício de vidas.

Para Lowery, em lugar em empregar métodos tradicionais de imposição de custos físicos através da força direta sobre as massas, o sistema Bitcoin introduz custos físicos significativos ao transferir cargas através de resistores. Essa abordagem resultaria em uma forma de defesa não cinética, sem massa, definida por software, que pode emergir como a principal estratégia para nações protegerem sua propriedade política e liberdade de ação no ciberespaço, com a consequência das nações não ficarem enredadas em um impasse nuclear.

Enquanto isso na ágina 260 lemos: “O software oferece aos administradores muito poder abstrato e autoridade de controle sobre os computadores de outras pessoas, e muitas vezes não há como usuários restringirem fisicamente os administradores de software de explorar ou abusar sistemicamente de suas permissões especiais ou autoridade de controle”.

E continua na página 265: “Este ponto precisa ser enfatizado: aqueles que criam e especificam o design de software, o fazem usando decisões arbitrárias sobre como nomeá-lo e quais informações eles consideram importantes compartilhar sobre seu design – não existe uma especificação de software tecnicamente precisa, porque o próprio software é um conceito imaginário e abstrato”.

O autor defende que desde que os conceitos de criptografia e computação em rede foram introduzidos, o Bitcoin emergiu de maneira natural, até orgânica, como protocolo de função de custo físico, a mais adotada até o momento. E à medida que a adoção aumenta, o Bitcoin prova ser um meio para que as pessoas se envolvam numa batalha em escala global por controle, baseado em confiança zero e pelo controle igualitário sobre bits de informação.

Por outro lado, à medida que a adoção do Bitcoin aumenta, aumenta também a chance dessa tecnologia ser usada para outras funções, além de exclusivamente como um sistema monetário. Na verdade o Bitcoin já estaria pronto para transacionar informação de várias fontes não monetárias, mantendo as características que já conhecemos.

É verdade que Nakamoto, seu criador, o desenhou de maneira sucinta com especificações de design do protocolo apenas como dinheiro. Nakamoto estava publicamente interessado em tirar o dinheiro das mãos do estado. Mas feliz ou infelizmente, tão logo lançou a ferramenta, tornou o projeto órfão. Então a grande maioria do que foi escrito sobre o Bitcoin vem por acréscimo de colaboradores mundo afora.

O autor ainda defende que “não existe muita literatura acadêmica que explore o potencial dessa tecnologia para servir como algo além de uma rede monetária. Por este motivo, o objetivo dessa tese é fornecer uma visão técnica sobre o design e a funcionalidade do Bitcoin, usando uma especificação de design diferente daquela fornecida por Nakamoto”.

Em vez de visualizar o Bitcoin estritamente como um sistema de dinheiro eletrônico peer-to-peer, Lowery forneceu uma maneira das pessoas visualizarem o Bitcoin como meio pelo qual podem projetar poder físico umas sobre as outras por meio do cyberespaço: “A partir dessa perspectiva obtemos a visão de que ele é uma tecnologia de softwar em escala global que poderia revolucionar a percepção da sociedade da era digital sobre confronto físico. Esta é uma descrição mais convincente do valor socioeconômico, técnico e estratégico do potencial do Bitcoin”.

Identificar um recurso com potencial para se tornar uma arma nas mãos dos seus inimigos implica deduzir duas consequências imediatas básicas diametralmente opostas mas não excludentes:
A necessidade de garantir o banimento de seu uso ou a necessidade de utilizá-lo antes para dominá-lo.

Observe que o fato de estas alternativas não serem excludentes sugere que, ainda que o estado proíba ao cidadão comum a utilização do instrumento, isto não implica que ele mesmo não irá usá-lo. Isto aumenta o raio das incertezas citadas anteriormente, visto que as implicações possíveis se amontoam e vão desde o “Eminent domain” (aquisição compulsória dos ativos em posse da população) até a utilização do Bitcoin como colateral para transações em substituição ao sistema SWIFT. Enfim, as possibilidades são inúmeras e estamos apenas iniciando o desbravar desse mar imenso.

A “teoria dos jogos” estuda situações de interação estratégica entre agentes racionais. Ela modela como tomadores de decisão interagem em cenários onde o resultado de suas escolhas depende das escolhas dos outros participantes. A teoria da “floresta sombria”, por sua vez, originada na obra de mesmo nome do escritor chinês Liu Cixin, sugere que em universo repleto de civilizações avançadas, os seres inteligentes tendem a ocultar sua existência e tecnologia, escondendo-se para evitar serem detectados por outras civilizações.

Isso ocorre devido aos riscos de contato inter-civilizacional, como a competição ou a destruição mútua. Estas hipóteses parecem ser o argumento mais assertivo que conduzem à conclusão de que os estados podem num futuro próximo vir a adotar e adquirir Bitcoin, com o propósito de utilizá-lo como ativo de ataque ou defesa, a fim de mitigar as consequências de outros o fazerem primeiro. Urge daí a necessidade de discrição e o anonimato advindo da própria natureza da ferramente, que facilita isto.

A obra “SoftWar” deixa claro estar defendendo os interesses dos Estados Unidos e o seu status quo de supremacia no ambiente virtual, elucubrando sobre a necessidade de se mitigar os avanços de países inimigos e compreendendo quais novas armas poderão vir a ser utilizadas em um futuro próximo. Lowery à sua maneira perverte o Bitcoin, um instrumento da liberdade, em função da guerra no ciberespaço, através da projeção de poder físico traduzido por custos energéticos e de capacidade de processamento. Mas se o Bitcoin puder ser usado para projetar poder, ele certamente será usado para isso em algum momento!

Os próximos anos serão decisivos para demonstrar se a tese de utilizar a criptografia do Bitcoin como arma, exposta em Softwar, se concretizará. Por outro lado, Coréia do Norte, Banco Central Suíço e governo da Venezuela tendem a aumentar a adoção do Bitcoin, podendo implantá-la como moeda de curso legal. Essas ainda são ações recentes e, portanto, ainda não se pode tirar conclusões sem correr o risco de serem prematuras, a exemplo da experiência de El salvador. De qualquer maneira, o Bitcoin está se consolidando como o instrumento final, o ativo mais promissor e poderoso que guiará a humanidade, onde quer que ela vá.

A busca da criptografia como arma suprema, acelera na proporção em que os estados modernos caem em descrédito. Talvez, como vimos na “teoria dos jogos” e na ideia da “Floresta sombria”, esta guerra já esteja em curso e os estados modernos já estejam realizando aportes paulatinos em Bitcoin e estudando formas de subjugar sua rede a seus próprios interesses.

Para os entusiastas ou maximalistas, resta contemplar com pragmatismo o mar profundo e sedento no qual estamos submergindo, confiando no processo e na capacidade da liberdade em contornar o mais vil dos intentos, confiar em sua capacidade de lavar toda a lama que a humanidade é capaz de criar. Fazendo a aposta correta, poupando hoje para poder sobreviver no futuro.

Para além do que se pode especular sobre o Bitcoin de amanhã, sabemos que hoje ele é a resposta para como nos proteger contra o totalitarismo, o roubo e a censura, tanto no mundo físico, quanto no ciberespaço.

E para continuar nesse assunto, veja agora o video: “Bitcoin, a Teoria dos Jogos e o Problema dos Generais Bizantinos”. O link segue na descrição.

Referências:

Bitcoin, a Teoria dos Jogos e o Problema dos Generais Bizantinos https://www.youtube.com/watch?v=MNu1gWj4vz8 https://exame.com/future-of-money/venezuela-usar-criptomoedas-negociar-petroleo-driblar-sancoes-eua/ https://exame.com/future-of-money/em-2022-hackers-da-coreia-do-norte-roubaram-us-17-bi-em-cripto-para-financiar-armamento-nuclear/ https://www.investopedia.com/news/what-north-koreas-role-bitcoin/ https://www.amazon.com.br/Softwar-Projection-National-Strategic-Significance/dp/B0BW358F37

Visão Libertária

Visão Libertária é um jornal diário no YouTube, parte do canal ancap.su com conteúdo voltado ao libertarianismo. Trata-se de um jornal colaborativo em que muita gente participa da criação, edição, escolha dos temas e consegue receber algumas migalhas que o YouTube, de vez em quando, joga pra gente.

Nossas Redes Sociais

Visão Libertária. Desenvolvido por KoreacomK e a comunidade.