Enquanto o FGC corta pagamentos de milhares de investidores, Haddad pede superpoderes para o Banco Central e Lula usa o escândalo financeiro como pretexto para controlar as polícias estaduais. O estado cresce, e a sua liberdade diminui.
O mês de janeiro de 2026 vem mostrando a natureza do estado brasileiro. A liquidação do Banco Master e as revelações subsequentes não expuseram apenas uma fraude financeira de proporções bilionárias. Elas escancararam como a máquina pública utiliza suas próprias falhas para expandir seu controle sobre a sociedade. Nas últimas 48 horas, assistimos ao Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e ao Presidente Lula, instrumentalizarem o colapso de uma instituição bancária para avançar pautas que, em tempos normais, encontrariam resistência. A centralização regulatória e a federalização da segurança pública são as novas armas na mesa.
Tudo começou com o anúncio do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC. A entidade iniciou o pagamento de R$ 40,6 bilhões aos credores do Banco Master nesta segunda-feira, dia 19. Este é o maior pagamento da história do fundo. No entanto, o que deveria ser um alívio transformou-se em pesadelo para metade dos envolvidos. De uma base inicial de 1,6 milhão de investidores, apenas cerca de 800 mil foram considerados aptos a receber os valores neste primeiro momento. O motivo alegado foi um "pente-fino técnico" para sanar inconsistências.
Para o investidor comum, a mensagem dada é que a garantia do fundo para-estatal, é uma promessa que pode ser revogada ou burocratizada no momento em que você mais precisa dela. O sistema de garantias cria o que economistas chamam de risco moral. Bancos irresponsáveis captam dinheiro oferecendo taxas exorbitantes, como os 130% do CDI prometidos pelo Master. O investidor, seduzido pelo selo do FGC, ignora os fundamentos da instituição. Quando a casa cai, a conta é socializada. Quem ficou de fora da lista enfrenta a incerteza de processos judiciais longos, enquanto vê seu patrimônio derreter sem a correção monetária adequada.
Mas a tragédia dos investidores é apenas o pano de fundo para a movimentação política. Em Brasília, a crise foi recebida como uma oportunidade de ouro. Fernando Haddad foi a público defender uma mudança estrutural drástica. Ele propôs retirar da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, a responsabilidade de fiscalizar fundos de investimento. Essa competência seria transferida para o Banco Central. Segundo o ministro, existe uma interseção muito grande entre fundos e finanças, e o modelo atual permitiu que o Banco Master operasse sua "ciranda financeira" nas sombras.
Haddad argumenta que essa centralização alinharia o Brasil às práticas de países desenvolvidos. No entanto, sob uma ótica libertária, concentrar poder regulatório, monetário e de fiscalização em uma única autarquia é um convite ao desastre. O Banco Central já detém o monopólio da emissão de moeda e da taxa de juros. Dar a ele o controle total sobre a indústria de fundos elimina freios e contrapesos institucionais. Cria-se um "Super Banco Central" com poderes inéditos de intervenção na alocação de capital privado.
A manobra também possui um componente político evidente. Haddad fez questão de blindar a atual gestão do Banco Central, liderada por Gabriel Galípolo. O ministro repetiu em diversas entrevistas que Galípolo "herdou um abacaxi" da gestão anterior e que resolveu o problema com competência. Essa narrativa serve para isentar o governo atual de qualquer culpa pela demora na liquidação do banco, que continuou operando e captando recursos durante todo o ano de 2025. Ao jogar a responsabilidade para a estrutura regulatória da CVM e para a gestão passada do BC, o governo justifica a necessidade de mais poder para seus indicados.
A fraude do Banco Master não ocorreu por falta de leis ou de reguladores. Ela ocorreu apesar deles. O banco utilizava fundos geridos pela Reag, atual CBSF, para comprar seus próprios ativos podres. O banco captava dinheiro via CDBs e investia nesses fundos. Os fundos, por sua vez, compravam papéis sem lastro de empresas ligadas aos sócios do banco. Era um esquema circular para inflar o balanço. Tanto a CVM quanto o Banco Central tinham acesso a essas informações. A falha não foi de jurisdição, mas de incentivos. Burocratas não possuem o mesmo zelo na fiscalização que uma auditoria privada teria, pois não colocam o próprio capital em risco.
Enquanto Haddad cuida da burocracia financeira, o Presidente Lula avança na frente da segurança pública. Em um discurso inflamado durante a posse do novo Ministro da Justiça, Lula vinculou diretamente o caso do Banco Master à necessidade de aprovação da PEC da Segurança Pública. O presidente afirmou que o país nunca esteve tão perto de atingir o "andar de cima" do crime organizado e da corrupção. Ele usou a fraude bancária como exemplo da complexidade criminal que exigiria uma resposta federal coordenada.
Essa conexão é intelectualmente desonesta, mas politicamente astuta. O caso do Banco Master foi investigado pela Polícia Federal, que já é um órgão da União. A fraude financeira não tem relação com a falta de coordenação entre as polícias estaduais ou com a ausência de uma Guarda Nacional. No entanto, Lula utiliza o ressentimento popular contra banqueiros fraudulentos para vender uma proposta de centralização policial. A PEC da Segurança visa dar à União poderes constitucionais para intervir e ditar as políticas de segurança dos estados.
Para quem defende a liberdade, a federalização da segurança é um passo perigoso rumo ao autoritarismo. Polícias estaduais descentralizadas, ainda que imperfeitas, dificultam a consolidação de um estado policial nacional. Uma força de segurança sob o comando direto de Brasília, com poderes ampliados sobre todas as esferas da vida civil, é uma ferramenta tentadora para qualquer governante com tendências centralizadoras. Lula promete que o "estado brasileiro vai derrotar o crime organizado" , mas a história mostra que o estado costuma usar esses poderes para vigiar e controlar o cidadão comum, enquanto o crime organizado se adapta ou se associa ao próprio poder público.
O mesmo Estado que falhou em regular o sistema bancário agora pede mais poderes para regular o sistema bancário. O mesmo estado que não consegue garantir a segurança nas ruas agora pede o controle total das polícias para combater crimes de colarinho branco. É a lógica do estatismo: a solução para o fracasso da intervenção estatal é sempre mais intervenção estatal.
A fraude do Banco Master só foi possível em um ambiente de dinheiro fácil e garantias artificiais. Se tivéssemos um mercado livre de moeda, sem um Banco Central manipulando juros e sem um FGC induzindo ao risco moral, os investidores seriam naturalmente mais cautelosos. Bancos teriam que provar sua solidez dia após dia para atrair clientes. Auditorias privadas teriam incentivos reais para detectar fraudes, pois sua reputação estaria em jogo. No sistema atual, a regulação estatal cria uma falsa sensação de segurança que atrai a poupança popular para o abismo.
Além disso, não podemos ignorar as conexões políticas que permeiam o caso. Houve tentativas de vender carteiras de crédito do Banco Master para o BRB, o Banco de Brasília. Essa operação, se concretizada, teria transferido o prejuízo privado para os cofres de um banco público. A área técnica do Banco Central vetou a operação, mas a pressão política existiu. Isso demonstra o "capitalismo de compadrio" em ação. Grandes empresários com conexões políticas tentam se salvar às custas do pagador de impostos, utilizando bancos estatais como lixeiras para seus ativos podres.
A proposta de Haddad de esvaziar a CVM ignora que a autarquia já havia rejeitado acordos com os controladores do Master em outras investigações. A CVM não foi leniente; ela foi atropelada pela complexidade de um sistema que o próprio governo ajudou a criar. Transferir a fiscalização para o Banco Central apenas concentra o problema. Se o BC errar, não haverá outra agência para apontar a falha. O risco sistêmico aumenta com a centralização.
O discurso de Lula sobre "pegar o andar de cima" também serve como cortina de fumaça. Enquanto o público se foca na figura dos banqueiros, o governo passa leis que aumentam a vigilância financeira sobre todos. A retórica de combate à lavagem de dinheiro e ao crime organizado tem sido usada globalmente para restringir o uso de dinheiro em espécie e monitorar transações de criptomoedas. A PEC da Segurança é apenas mais um capítulo nesse avanço sobre a privacidade financeira e a liberdade individual.
O caso Banco Master é um microcosmo do Brasil. Temos a fraude empresarial facilitada por distorções estatais. Temos a agência reguladora que chega tarde demais. Temos o fundo garantidor que exclui beneficiários na hora H. E temos a classe política que, como abutres, desce sobre a carcaça da crise para arrancar mais pedaços da nossa liberdade. Haddad quer controlar onde você investe. Lula quer controlar quem te policia. E o investidor que acreditou na proteção do Estado está na fila do aplicativo, esperando um pagamento que talvez nunca venha.
A lição que fica é dura, mas necessária. Não existe almoço grátis, e não existe garantia estatal perfeita. O Estado não é seu segurador; ele é o dono do cassino. Quando a banca quebra, ele muda as regras, confisca as fichas e ainda culpa os jogadores. A única proteção real contra a fraude e a expropriação é a autonomia individual, o ceticismo em relação às promessas governamentais e a busca por alternativas fora do sistema financeiro tradicional e centralizado.
Enquanto a poeira baixa e os advogados preparam suas ações contra o FGC, o rolo compressor de Brasília continua. A PEC da Segurança ganhará força nas comissões legislativas, impulsionada pelo medo e pela demagogia. A reforma regulatória de Haddad tramitará com a urgência de quem quer esconder as próprias falhas. E o cidadão brasileiro, mais uma vez, pagará a conta. Seja através das taxas bancárias que financiam o FGC, seja através da perda de liberdade imposta pelas novas leis.
O anarcocapitalismo nos ensina que o monopólio da força e da jurisdição é a raiz desses problemas. Em uma sociedade de leis privadas, fraudadores como os do Banco Master seriam ostracizados e processados por tribunais de arbitragem ágeis, sem a proteção de conexões políticas. A segurança seria um serviço contratado, focado na proteção da propriedade e da vida, e não na imposição de diretrizes federais. O dinheiro seria privado e sólido, imune à inflação e à manipulação de juros por tecnocratas.
Mas estamos longe dessa realidade. Por enquanto, vivemos sob a tutela de um Estado que falha, se desculpa e pede mais poder. O episódio do Banco Master deve servir de alerta. A cada crise, a liberdade recua um passo. Fique atento às propostas que surgem no calor do momento. Quando um político diz que precisa de mais poder para te proteger de um "monstro" que ele mesmo ajudou a criar, corra. A proteção que ele oferece é a grade de uma cela.
https://einvestidor.estadao.com.br/ultimas/fgc-banco-master-reducao-investidores-ressarcidos/
https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/01/03/veja-quem-e-quem-no-caso-do-banco-master-e-o-papel-de-cada-instituicao.ghtml
https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/fgc-deve-comecar-a-pagar-credores-do-banco-master-nesta-segunda-feira-19/