Bolsonaro e Clezão: as vítimas de um sistema corrupto e injusto

Após a morte do pai de família, Cleriston Pereira da Cunha, o Clezão, agora vemos o ex-presidente Bolsonaro também sendo vítima de negligência e tortura psicológica. Até quando a sociedade brasileira vai tolerar um sistema de justiça corrupto e criminoso?

A notícia publicada por vários jornais neste início de janeiro, informando que Jair Bolsonaro sofreu um traumatismo craniano leve após um mal-estar e uma queda dentro da prisão da Polícia Federal, não é apenas um boletim médico. O episódio, ainda que clinicamente classificado como de baixa gravidade, expõe de forma simbólica o estágio preocupante ao qual chegou a relação entre o sistema de Justiça brasileiro e a política nacional. Trata-se de um retrato incômodo de um país em que o Judiciário deixou de atuar como árbitro discreto para assumir um papel central, ativo e, muitas vezes, protagonista no jogo de poder, e a polícia federal se tornou seu instrumento de perseguição de adversários políticos.
O ponto central é institucional. Em uma democracia madura, ninguém — absolutamente ninguém — pode ser tratado fora das garantias legais, independentemente de cargo, popularidade ou rejeição política. Quando esse princípio passa a ser relativizado, o problema deixa de ser um indivíduo e passa a ser o próprio Estado de Direito.
Desde 2019, o ministro Alexandre de Moraes consolidou uma posição inédita na história recente do Supremo Tribunal Federal. Acumulando funções de investigador, acusador e julgador em diferentes procedimentos, Moraes tornou-se uma das figuras mais poderosas da República, extrapolando o papel tradicionalmente reservado à Suprema Corte. O STF, que deveria funcionar como guardião da Constituição, passou a atuar como ator político direto, interferindo no debate público, delimitando discursos aceitáveis e moldando o ambiente político por meio de decisões judiciais.
(Sugestão de Pausa)
O caso envolvendo o ex-presidente Bolsonaro é o exemplo mais visível desse fenômeno. Medidas cautelares extensivas, decisões monocráticas de grande impacto, restrições severas à comunicação e um processo conduzido sob lógica excepcional passaram a ser justificados pelo discurso da “defesa da democracia”. O problema é que democracia não se defende suspendendo os princípios que a sustentam, como o contraditório, a ampla defesa, a presunção de inocência e o juiz natural.
O episódio do traumatismo sofrido por Bolsonaro dentro da prisão precisa ser lido dentro desse contexto. Ainda que não haja indícios de dolo ou negligência direta no ocorrido, o ambiente que o cerca é de pressão contínua, exposição pública constante e desgaste físico e psicológico. Um Estado que afirma respeitar direitos fundamentais não pode tratar a integridade física e a saúde de qualquer custodiado como detalhe secundário. A prisão — preventiva ou definitiva — não suspende a dignidade humana.
Historicamente, o Judiciário brasileiro sempre se caracterizou pela discrição. Juízes falavam por meio de votos técnicos, colegiados e previsíveis. O que se observa hoje é uma inversão desse padrão: decisões concentradas, linguagem política, timing midiático e protagonismo pessoal. O famoso ditador sem cabelos tornou-se o símbolo dessa virada institucional, em que a exceção deixa de ser instrumento pontual e passa a ser método recorrente.
(Sugestão de Pausa)
O argumento utilizado para sustentar esse modelo é sempre o mesmo: o país enfrentaria “ameaças excepcionais”, e as instituições teriam sido atacadas por “golpistas”, exigindo, assim, respostas excepcionais. A História, no entanto, é implacável ao demonstrar que exceções são vícios difíceis de conter. Uma vez normalizadas, tornam-se regra. Quando um magistrado passa a decidir o que pode ou não ser dito, quem pode ou não se manifestar e quais narrativas são aceitáveis, o Judiciário abandona sua função de garantidor da Constituição e assume o papel de intérprete absoluto do bem e do mal político.
Outro ponto sensível é a percepção de seletividade. Cresce na sociedade a sensação de que a lei pesa mais sobre uns do que sobre outros. O rigor extremo aplicado a Bolsonaro e a seus aliados contrasta com a leniência observada em relação a outras figuras políticas, inclusive com condenações em instâncias inferiores já confirmadas. Essa assimetria corrói a confiança pública e fortalece a ideia de que o Supremo deixou de ser um tribunal para se tornar um órgão político com preferências claras.
Esse cenário se agrava quando decisões judiciais passam a ser celebradas ou condenadas não por seu fundamento jurídico, mas por seu efeito político imediato. Esse é um sinal clássico de degradação institucional. O Judiciário não pode ser aplaudido como torcida nem temido como polícia política. Ele precisa ser respeitado — e respeito nasce da previsibilidade, da imparcialidade e da autocontenção.
(Sugestão de Pausa)
É nesse ponto que entra o caso mais grave e perturbador de todos: o de Cleriston Pereira da Cunha, conhecido como Clezão. Se o episódio envolvendo Bolsonaro simboliza o desgaste físico e psicológico produzido por um sistema judicial endurecido, o caso Clezão expõe o custo humano dessa lógica quando ela ultrapassa todos os limites.
Clezão era um cidadão preso no contexto dos atos de 8 de janeiro. Não possuía condenação definitiva, não representava risco concreto e apresentava laudos médicos que indicavam problemas graves de saúde, inclusive cardíacos. Mesmo assim, permaneceu preso. Pedidos de liberdade foram ignorados. Alertas médicos não produziram efeito. O resultado foi trágico: Clezão morreu sob custódia do Estado.
Não se trata de retórica. Trata-se de um fato. Um cidadão morreu antes de ser julgado. Não por sentença, não por condenação, mas por omissão institucional. Isso desmonta por completo o discurso de que medidas duras são apenas instrumentos técnicos e temporários. Quando o Judiciário fecha os olhos para a condição humana do réu, quando a prisão preventiva vira punição antecipada e quando a saúde do custodiado é tratada como inconveniente processual, não estamos diante de justiça firme — estamos diante de justiça desumanizada.
Ainda mais grave foi a reação institucional ao caso: praticamente nenhuma. Não houve revisão ampla de critérios, não houve autocrítica, não houve freio. O sistema seguiu operando como se nada tivesse acontecido. Isso revela um problema estrutural: a exceção foi normalizada.
(Sugestão de Pausa)
O caso Clezão expõe um padrão perigoso que se consolidou: prisões prolongadas sem sentença definitiva, decisões concentradas em poucos ministros, baixa disposição para revisão e um discurso que justifica tudo em nome de um bem maior abstrato. A História mostra que arbitrariedades não nascem de grandes rupturas, mas de pequenas exceções aceitas em silêncio.
Quando um juiz passa a decidir quem merece proteção constitucional plena e quem pode ser mantido sob risco, o Judiciário abandona sua função de garantidor de direitos e assume a de gestor político da punição. Isso não é papel da Suprema Corte. Isso não é papel de um ministro. Isso é papel de regimes que acreditam que os fins justificam os meios.
O contraste entre o discurso de defesa da democracia e a realidade de pessoas adoecendo, sendo silenciadas ou morrendo sob custódia do Estado é brutal. Democracia não se sustenta com presos sem julgamento, com decisões praticamente irrecorríveis e com vidas tratadas como dano colateral aceitável.
Clezão virou símbolo justamente porque não era poderoso, não era famoso e não tinha capital político. Era um cidadão comum. E quando a Justiça falha em proteger o mais fraco, ela já não protege ninguém.
Somados, os episódios — o endurecimento processual, o desgaste físico, o traumatismo e a morte sob custódia — revelam que o Judiciário brasileiro atravessa uma fase crítica. A exceção virou método; o método virou rotina. E, quando isso acontece, o Estado de Direito começa a ruir por dentro, ainda que preserve sua fachada institucional.
(Sugestão de Pausa)
A crítica aqui não é ideológica. É estrutural. Um país sério precisa de juízes imparciais e íntegros, ou seja, pessoas que não sejam enviesadas politicamente e que não imponham sua vontade pessoal. O Supremo Tribunal Federal não pode substituir o debate político, nem reescrever o equilíbrio entre os Poderes por meio de decisões personalistas.
Se o povo brasileiro pretende preservar sua democracia, precisará enfrentar uma pergunta incômoda, porém inevitável: quem vigia o vigilante? Quando o Judiciário se coloca acima do escrutínio público, rejeita críticas e normaliza exceções, o risco deixa de ser para um político específico. O risco passa a ser para todos.
Democracia que depende de juízes protagonistas já começou a perder o roteiro.


Referências:

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/bolsonaro-cai-e-bate-cabeca-diz-michelle/
https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/pontopoder/bolsonaro-cai-e-sofre-traumatismo-leve-na-prisao-1.3724248
https://www.poder360.com.br/poder-brasil/bolsonaro-vai-para-hospital-apos-cair-e-bater-a-cabeca-em-cela/